terça-feira, 19 de março de 2013

A Democracia Oligárquica


Anunciados os resultados das eleições italianas, o economista Joseph Stiglitz escreveu um artigo contundente no site Project Syndicate. O resultado das eleições italianas, diz Stiglitz, deveria mandar uma mensagem clara para as lideranças europeias: as políticas de austeridade recomendadas e praticadas por eles são rejeitadas pelos eleitores.
O economista considera um despropósito antidemocrático entregar os governos a tecnocratas enredados em ligações com o establishment, inclinados a adotar políticas ineficazes para atingir os objetivos proclamados, mas suficientemente cruéis para disseminar a miséria entre os cidadãos da Eurolândia.
“A realidade mostra que a maioria dos países da União Europeia está mergulhada na depressão. A queda do PIB italiano desde o início da crise é tão grande quanto a observada nos anos 1930 do século XX. Na Grécia, o desemprego entre os jovens bateu nos 60%, e na Espanha chegou a mais de 50%. Com essa destruição de capital humano, o futuro da Europa não parece brilhante.”
A grande imprensa nacional e estrangeira rodopiou em torno de seus preconceitos para estigmatizar o humorista Beppe Grillo. Tal como a grã-fina de Nelson Rodrigues, os midiáticos de anedota e champanhota lançaram de suas narinas de cadáver as mesmas ventanias desferidas contra o presidente venezuelano Hugo Chávez antes, durante e depois do anúncio de sua morte. “Populismo!”, gritam indignados, enquanto escondem sob as cuecas as vergonhas de suas ideias grotescas e as patifarias de suas políticas malfazejas.
A “impotência política” dos governos esconde os segredos da dominação oligárquica: a ocupação do Estado e de seus órgãos de regulação pelas tropas das finanças e dos interesses corporativos graúdos, sob as bênçãos da cogula midiática.
Nos 1990, sob a forte e notória influência dos lobistas das grandes instituições financeiras, os Parlamentos aceleraram as reformas da legislação para abrir caminho às práticas agressivamente “inovadoras” dos mercados.
A finança e sua lógica notabilizaram-se por sua capacidade de impor vetos às políticas macroeconômicas.
A despeito do desemprego e da desigualdade escandalosa, as ações compensatórias dos governos sofrem fortes resistências das casamatas conservadoras. Ao tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos privilegiados, a globalização desarticulou a velha base tributária das políticas keynesianas, nas quais prevaleciam os impostos diretos sobre a renda e a riqueza.
Os programas de redistribuição de renda, reparação de desequilíbrios regionais e assistência a grupos marginalizados têm encontrado forte resistência dentro das sociedades. Mais um ardil da razão: o novo individualismo construiu a sua base social na grande classe média emergente na longa prosperidade e as políticas igualitárias predominantes na “Idade de Ouro” do Estado do Bem-Estar.
Agora em escombros, as classes médias, nos Estados Unidos e na Europa, ziguezagueiam entre os fetiches do individualismo e as realidades de declínio social e econômico. O reconhecimento da crise como um fenômeno social é inevitável. E esse reconhecimento torna-se mais disseminado quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio à teimosa celebração do sucesso de alguns indivíduos.
Trata-se, isso sim, de esmagar os princípios do regime democrático representativo, movendo as engrenagens do moinho satânico. No atual funcionamento das democracias parlamentares do Ocidente, como disse Luciano Cânfora, o sistema trata de limitar a eficácia dos organismos eletivos que acabam por assumir funções periféricas ou de mera ratificação diante dos poderes oligárquicos, sobretudo no campo da economia e das finanças, enquanto a mídia de massa cuida de obstruir a capacidade de compreensão da opinião pública.
Na visão de Cânfora, as forças populares e seus partidos não foram capazes de antecipar o recurso mais eficaz da economia capitalista, a diversificação e a fragmentação crescente das classes em escala nacional e internacional. “Os poderosos são unidos e internacionalistas, prontos para enfrentar por meio de governos considerados democratas, a seu serviço em qualquer emergência; os outros não dispõem de coligação internacional, nem de partido, nem de perspectiva.”
Só os cínicos ou néscios ignoram que as tropas da Economia, essa degeneração da metafísica ocidental, transformaram os Estados numa caricatura da República, em um mercado de influências e transações suspeitas.
Essa engrenagem controla o Estado por dentro e precisa produzir as condições que a ajudem a reproduzir a si mesma.

Brasil é o 21º país que mais exporta armamentos



O Brasil subiu dez posições na lista dos países que mais exportaram armas convencionais (aviões de combate, tanques, veículos armados, helicópteros, artilharia, mísseis, entre outros) entre 2008 e 2012. No período, as exportações nacionais no setor aumentaram 167%, na comparação com o período de 2003-2007. Com isso, o País passou de 31º maior exportador, para 21º, segundo relatório do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), publicado na noite deste domingo 17, ao qual CartaCapital teve acesso com exclusividade no Brasil.
Pesquisa do IPEA apontou que mais da metade da população acredita em ameaça de invasão de estrangeiros para apropriação de recursos da Amazônia e Pré-Sal . Foto: Repórter do Futuro/Flickr
Brasil está entre os 25 países que mais compraram armas convencionais nos últimos cinco anos. Foto: Repórter do Futuro/Flickr
É o maior resultado desde o período de 1984 a 1988, quando o País ocupava o 13º lugar, se beneficiando de massivas exportações para Irã e Iraque, que estavam em guerra entre si. Somente para o governo iraquiano, o Brasil vendeu diversos tipos de tanques e 80 aviões Tucanos, com contrato de ao menos 500 milhões de dólares em valores da época.
O aumento significativo das exportações brasileiras nos últimos cinco anos não espanta Mark Bromley, pesquisador do SIPRI e especialista em América Latina. “O Brasil é um dos países da América do Sul com uma indústria de defesa bem desenvolvida. Nos anos 80, era um significante ator global no mercado de armas e agora o governo quer recuperar parte deste espaço.”
No último quinquênio, o Brasil exportou armas convencionais para 15 países, sendo o maior comprador o Equador (55%). O país sul-americano importou 18 aviões de combate Super Tucanos, da Embraer, e outra aeronave de transporte de segunda mão. O segundo maior cliente foi o Chile (14%), com 12 Super Tucanos.
Os dados evidenciam que a exportação de aviões, principalmente da Embraer, impulsionaram o resultado brasileiro no ranking. Este tipo de produto responde por 81% das vendas de armamentos do país. A maioria deles é de Super Tucanos.
Aproveitando esse quadro, a Embraer figura em uma recente lista do SIPRI das 100 companhias produtoras de armas e serviços militares. No ranking, a empresa brasileira ficou na 81ª posição em 2011, contra o 95º lugar no ano anterior. “Os Super Tucanos são muito bem sucedidos no mercado global e preenchem um vazio para muitos países”, diz Bromley. “Houve também alguns outros acordos interessantes, como a venda de mísseis para a Indonésia, que indica um futuro com outros sistemas que podem ganhar maior espaço nas exportações.”
As vendas com o braço militar da Embraer representaram 17,1% da receita total da empresa. Segundo a Embraer Defesa & Segurança, o crescimento faz parte de uma estratégia de diversificação de negócios para oferecer soluções ao Brasil e outros países. “O Super Tucano é um avião capaz de cumprir um grande número de missões militares e está em operação em nove forças aéreas na América Latina, África e Sudeste Asiático”, destaca a empresa em nota aCartaCapital.
A Embraer Defesa & Segurança ainda ressalta a importância de exportar produtos de alto valor agregado para ajudar na balança comercial do País e de investir em tecnologia e engenharia de alta complexidade “dominadas apenas pelos países mais desenvolvidos do mundo”.
Além das aeronaves, as vendas de mísseis (7%), artilharia (4%) e veículos armados (3%) completam os principais produtos da indústria de defesa do Brasil no período, com um total de 384 negociações. Destas, 61% foram com a América Central e a América do Sul, seguido por Ásia e Oceania (17%) e Europa (13%).
Aumento das importações
O relatório do SIPRI também mostra um avanço brasileiro entre os que mais importaram armas convencionais. O volume de compras entre 2008 e 2012 subiu 78%. Com isso, o País passou da 34ª posição para a 27ª, com 1% das compras mundiais do setor. “Essas importações atendem à necessidade de modernização dos equipamentos nacionais”, afirma Gunther Rudzit, especialista em segurança e professor da Faculdade Rio Branco, de São Paulo.
O analista destaca também o foco do investimento para colocar em prática o plano das administrações de Lula e Dilma Rousseff de dar ao Brasil um papel de maior destaque no cenário internacional. “O Brasil faz campanha aberta por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. E isso vem com a percepção de que se não for um ator militar forte, não vai conseguir ser aceito.”
Segundo o SIPRI, o País comprou armas de 13 países nos últimos cinco anos. A Alemanha foi a maior fornecedora (69% do total) com a entrega de  220 tanques Leopardo-1A5 e 19 outros veículos armados. Todos de segunda-mão, mas modernizados.
Os EUA exportaram 21% das encomendas brasileiras, entre elas seis aviões de guerra anti-submarinos P-3A modernizados na Espanha e quatro helicópteros de guerra anti-submarino S-70B. A Rússia vem em terceiro (11%) com a entrega de 12 helicópteros de combate Mi-35M.
Ao todo, foram 1425 compras, somente de países europeus, EUA e Israel. Destas 560 se referiam a aeronaves (39% do total), 400 a veículos armados (28%) e 164 a mísseis (12%).
Ao realizar importações para suprir as necessidades nacionais, o Brasil tem investido em acordos com transferência de tecnologia, para que a própria indústria de defesa brasileira possa produzir estes itens e exportá-los no futuro. “Os maiores importadores do mundo, Índia, China e Coreia do Sul não querem apenas sistemas finalizados, mas acordos que lhes garantam transferência de tecnologia para que desenvolvam suas próprias indústrias de defesa. Alguns estão sendo bem sucedidos”, diz Paul Holtom, diretor do programa de transferências de armas do SIPRI.
No Brasil, afirma Bromley, o governo tem um exemplo de transferência neste sentido: a compra de veículos armados da Itália. O investimento deu ao País certo nível de licença de produção em território nacional. “Agora, esses veículos estão sendo exportados para a Argentina.”
Ainda assim, o País precisa produzir a maioria de suas inovações, defende Rudzit. “Neste aspecto, a Índia leva vantagem porque está em conflito e desenvolve sua capacidade militar há mais tempo. Por isso, consegue comprar mais barato porque não precisa de todos os sistemas. Transfere a tecnologia daquilo que ela não desenvolveu ainda. Nós já precisamos de tudo.”

FONTE: http://www.cartacapital.com.br/internacional/brasil-e-o-21o-pais-que-mais-exporta-armamentos/

segunda-feira, 18 de março de 2013

Investimento deve alcançar 18,6% sobre o PIB em 2013, prevê Itaú


O volume de investimento deve voltar a alcançar 18,6% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, disse ontem o economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, logo após reunião com investidores globais que ocorreu paralelamente à Assembleia de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no Panamá.
"A taxa retoma ciclicamente o que perdeu no ano passado, mas não vejo mais aquele investimento subindo 1% todo ano porque o investidor ainda está em um processo de esperar para ver", afirmou o economista.
Segundo Goldfajn, a confirmação da retomada do crescimento econômico pode reanimar os investidores, assim como uma maior clareza acerca da política econômica.
Atualmente, diz o economista, algumas dúvidas do investidor, como se vai haver desoneração para o setor em que atua ou não, ou questionamentos sobre se a taxa de lucro que vai ter deve ser calculada com ou sem desoneração, atrapalham a tomada de decisão, que passa a funcionar na base do "esperar para ver".
Goldfajn, no entanto, não acredita que o comportamento do Banco Central com relação à política monetária atrapalhe as decisões do empresariado. Segundo o economista, a sinalização de que o BC vai atuar se tiver inflação é mais importante do que o fato de a Selic subir ou não.
"Ele `o empresário~ está mais preocupado em saber se o preço dele sobe 5% e os preços da economia sobem 10% do que outra coisa", diz.
Goldfajn avalia que o controle das expectativas, porém, não é dado por um passe de mágica. "Ele tem que ser baseado não só na percepção de controlar, mas no próprio controle. Não se pode, com a inflação subindo, só falar que vai controlar a inflação. isso não adianta. Acho que, se a inflação não recuar, o BC vai ter que agir", afirmou, ao ressaltar que todo o dado relativo a preços que sair de agora em diante vai ser importante, tendo que ser olhado com lupa.
"Mesmo que venha uma primeira subida de juro vai ser preciso ver se vai haver uma nova". O Itaú espera quatro altas de 0,25 ponto na taxa Selic a partir de maio.
Goldfajn disse que os investidores ainda estão mal-humorados com relação ao Brasil, o que começou com a imposição do IOF às aplicações de renda fixa.
"Quando mexe no próprio bolso, o pessoal vira bicho. Mais ainda se a inflação sobe, o crescimento não vem e muda a regra das elétricas", disse. Para o economista, quando os investidores olham outros países se sentem mais confortáveis, como o Peru, que cresce ao redor de 6,5%, com uma inflação ao redor de 2,3%.
Ele afirmou, no entanto, que os projetos em infraestrutura apresentados recentemente pelo governo são vistos como interessantes. "Acho que é fundamental ser pragmático em certos aspectos, sendo um deles a taxa de retorno, que é o que garante que o projeto é viável".


ENEPET 2013



"O Programa de Educação Tutorial tem como objetivo fortalecer e apoiar atividades acadêmicas que integrem ensino, pesquisa e extensão. Os grupos são compostos por alunos que conhecem a realidade de seus cursos, e com o incentivo do governo, de seus professores, e de seu tutor, realizam projetos fundamentados na aprendizagem tutorial de natureza coletiva e interdisciplinar, que tem como objetivo melhorar a graduação, nos mais diversos aspectos, e assim obter uma formação pautada no desenvolvimento de atividades acadêmicas de excelência, sem esquecer de também buscar mais qualificação profissional e de estar, responsavelmente, dentro da academia engajados em causas sociais."
A décima segunda edição do Encontro Nordestino dos Grupos PET, teve como palco a capital do Ceará, Fortaleza, e foi realizado neste último final de semana. Os petianos André Benjamin de Azevedo e Karen Campos de Oliveira, junto com o tutor Gildásio Santana Júnior marcaram presença no evento! Confira as imagens a seguir:





A petiana e quase formanda Claudia Márcia publicou um artigo nesse evento, que tinha como tema o "Financiamento das Universidade Públicas". Infelizmente, ela não teve como participar. Seu trabalho foi apresentado pelo professor - tutor.

Em breve, mais novidades e relatos sobre o ENEPET!

Saudações Petianas!

Kamile Araújo 


>> site do evento: http://www.enepet.com.br/

quarta-feira, 13 de março de 2013

A Copa do Mundo no Brasil: qual o legado provável?


Na coluna 'Deixa Falar: o Megafone do Esporte' desta semana, o professor e pesquisador da Unicamp Marcelo Weishaupt Proni prevê que o futebol vai continuar sendo uma paixão nacional, um elemento da nossa identidade coletiva, mas a Copa vai intensificar o processo de privatização do espetáculo, tendência que parece ser irreversível.


Quando o Brasil sediou a Copa, em 1950, não havia essa preocupação com legado, nem com os impactos econômicos dos gastos necessários para organizar o torneio. A construção do Maracanã, projeto gigantesco, certamente aumentou a demanda de material de construção, implicou em geração de empregos, contribuiu para a urbanização daquela região da cidade e ajudou a dinamizar momentaneamente a economia da Capital federal. Talvez o dinheiro gasto pelo governo na construção do Estádio Municipal (renomeado “Jornalista Mário Filho” em 1966) pudesse ter sido utilizado de outra forma – como afirmavam políticos de oposição –, mas a população carioca acabou legitimando a decisão de investir numa obra que encheu de orgulho a nação.


Não foi preciso construir ou ampliar outros estádios. Em São Paulo, já havia o Pacaembu; em Belo Horizonte, o Independência. Também foram usados: o estádio dos Eucaliptos em Porto Alegre, a Vila Capanema em Curitiba e a Ilha do Retiro no Recife (mas, a desistência de 3 seleções diminuiu o número de jogos). O Morumbi, o Mineirão e outros grandes estádios foram construídos bem depois.

Em 1950, estima-se que a população do Rio passava de 2,3 milhões de pessoas. O novo estádio, projetado para mais de 160 mil pagantes, tinha capacidade de receber todo tipo de público. Os torcedores ficavam divididos em torno do campo em 4 categorias principais: camarote, cadeira, arquibancada e geral. Um jogo de futebol no domingo à tarde era, como diria Nelson Rodrigues, uma festa “democrática”.

O maior legado da Copa de 1950 foi, sem dúvida, no campo esportivo. Em especial, o Maracanã se tornou o principal palco do futebol brasileiro e ampliou a arrecadação com bilheteria para os grandes clubes cariocas. De quebra, mostrou ao mundo a capacidade de engenharia do País e se tornou cartão postal da cidade maravilhosa. Provavelmente, o torneio ajudou a atrair turistas estrangeiros.

Naquela época, não havia caderno de encargos e a Fifa era mais flexível (o próprio Maracanã não estava totalmente pronto, durante a Copa). O futebol era considerado um espetáculo popular, mas ainda não tinha entrado na fase da televisão e do marketing.

Na era da globalização, a Copa do Mundo se transformou num megaevento transmitido ao vivo para centenas de milhões de telespectadores, exigindo uma organização de alta complexidade e propiciando uma diversificada fonte de receitas. Os contratos de exclusividade assinados pela Fifa passaram a requerer uma série de garantias. Desde 1990, o país escolhido para sediar o torneio teve de demonstrar que é capaz de oferecer perfeitas condições de trabalho para a imprensa e de treinamento para as delegações, além de oferecer estádios seguros e confortáveis para os torcedores e plenas condições para o transporte e hospedagem dos turistas vindos de todas as partes do globo.

A preocupação com legado e com os impactos econômicos derivados da realização de uma edição da Copa do Mundo é relativamente recente. Principalmente no caso de países em desenvolvimento, como a África do Sul e o Brasil, que apresentam infraestrutura insuficiente e precisam mobilizar elevados recursos para atender as exigências da Fifa. Tornou-se necessário legitimar o enorme gasto público necessário com a promessa de que a realização do torneio traz uma série de benefícios para a sociedade em geral.

Contudo, estudos efetuados posteriormente às Copas da Alemanha (2006) e da África do Sul (2010) indicam que os efeitos positivos para a economia nacional foram insignificantes, seja em relação ao crescimento do PIB ou à geração de empregos, e que mesmo o setor de turismo teve ganhos muito aquém dos projetados antes do torneio. As avaliações referentes à Copa de 2010 evidenciam certos efeitos negativos, em particular a ociosidade dos estádios (“elefantes brancos”) e os benefícios concentrados na classe média, em detrimento de gastos na área social que poderiam beneficiar a população mais pobre.

Por outro lado, a prestação de contas da Fifa e dos comitês organizadores locais demonstra claramente que a Copa do Mundo é um negócio bastante lucrativo. Aliás, há várias empresas (e empresários) que ganham muito com o megaevento.

As projeções oficiais sobre os impactos econômicos da Copa de 2014 são bastante otimistas e procuram realçar o potencial máximo de ganhos que poderiam decorrer da efetivação dos gastos previstos para a preparação da infraestrutura urbana nas 12 cidades sede e para a construção ou reforma de estádios, assim como dos gastos referentes aos turistas estrangeiros durante o megaevento. Porém, a literatura internacional vem demonstrando que os resultados efetivos da realização de uma edição da Copa, pelo menos do ponto de vista econômico, costumam ser bem mais modestos e beneficiar apenas alguns segmentos privilegiados.

É preciso mencionar que o torneio estabeleceu um cronograma para várias melhorias na área de transporte aéreo e urbano, mas muitas obras estão atrasadas e com o custo inflacionado. Embora exista uma expectativa justificável de que a Copa estimule o setor turismo no País, é provável que seus principais legados não sejam na área econômica.

Olhando do ponto de vista esportivo, tudo indica que a Copa vai ser um marco na história do futebol brasileiro, mais um passo na transição para um estágio mais avançado de organização empresarial. O futebol mudou bastante nas últimas décadas, tanto dentro como fora dos gramados. As novas arenas multiuso – o legado mais palpável – expressam a preferência por um tipo distinto de torcida.

Atualmente, o Rio tem mais de 6,3 milhões de habitantes, mas a capacidade de público do Maracanã encolheu para menos de 80 mil pessoas, todas sentadas em cadeiras numeradas. Em São Paulo, o Pacaembu está ficando obsoleto, ao passo que as novas arenas (Corinthians, Palestra) e o Morumbi reformado vão privilegiar um tipo de público mais exigente e comportado. Em compensação, por enquanto, os principais jogos ainda são transmitidos pela televisão aberta, dando a sensação de acesso democrático ao espetáculo.

Entretanto, o caríssimo orçamento das arenas projetadas para a Copa tem colocado em questão a necessidade de tais investimentos e a consequência das dívidas assumidas. Por exemplo, é difícil explicar a decisão do governo do Distrito Federal de gastar R$ 1,2 bilhão na reforma e ampliação do estádio Mané Garrincha, agora com capacidade para 70 mil espectadores. Têm sido realizados seminários para discutir a sustentabilidade econômica dessas arenas multiuso, mas há muita desconfiança em relação à ociosidade de estádios onde o futebol ainda não entrou na era empresarial, caso da Arena Pantanal, da Arena das Dunas, da Arena da Amazônia e do próprio Estádio Nacional. Estes projetos estão sendo financiados pelo BNDES, mas os governos estaduais é que vão pagar os empréstimos para viabilizar negócios privados.

Em suma, na nova etapa do futebol brasileiro, os três níveis de governo continuam sendo solicitados para apoiar a modernização da infraestrutura, para uma atividade que é cada vez mais dominada pela lógica econômica. Prevalecendo a racionalidade do mercado, o preço médio dos ingressos provavelmente vai aumentar, o que pode excluir definitivamente os torcedores de baixa renda. Inclusive, há quem defenda essa medida como estratégia para combater a violência entre torcedores. Ainda assim, alguns governos estaduais terão de custear a manutenção das arenas construídas e o governo federal será pressionado a renegociar as dívidas dos grandes clubes nacionais.

O futebol vai continuar sendo uma paixão nacional, elemento da nossa identidade coletiva, mas a Copa vai intensificar o processo de privatização do espetáculo, tendência que parece ser irreversível.

* Marcelo Weishaupt Proni é economista formado pela Unicamp, mestre em Ciências Econômicas e doutor em Educação Física, também pela Unicamp. Atualmente, é diretor associado do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit). Autor do livro A Metamorfose do Futebol e de vários artigos sobre economia do esporte. É torcedor do Botafogo de Ribeirão Preto.
Dois toques do 'Megafone': 

1) O 'Megafone' indica 'A Metamorfose do Futebol São Paulo', Unicamp, 2000. 
Neste livro o leitor encontrará uma sólida análise do processo histórico de estruturação e desenvolvimento do futebol brasileiro, desde os seus primórdios ao advento da modernização deste esporte e suas contradições. Destacamos o segundo capítulo e a investigação da transição do futebol no Brasil, do amadorismo para o profissionalismo. 

2) O tema deste artigo será recorrente aqui no 'Deixa Falar: o Megafone do Esporte'. Outros autores publicarão suas ideias, pesquisas e dados sobre os megaeventos e a Política de Esportes levada a termo em nosso país nos últimos 20 anos. 

Deixa Falar: o megafone do esporte - criação e edição de Raul Milliet Filho

Chávez e a politização da classe trabalhadora


Para o professor Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, o incentivo à politização foi a grande herança do presidente à Venezuela
Patrícia Benvenuti,
da Redação

A politização da classe trabalhadora foi a grande herança de Hugo Chávez para a Venezuela.  A avaliação é do professor Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, do Departamento de Política da PUC-SP e editor da Revista Lutas Sociais, da mesma universidade.
Segundo o professor, as políticas sociais implementadas por Chávez foram essenciais para ajudar a transformar a realidade do país. Entretanto, o aumento do nível de consciência da população foi o que realmente permtiu a continuidade do processo. “[A politização] produz ávidos leitores da Constituição e foi fundamental para derrotar, em 2002, um golpe de Estado que praticamente todo mundo já considerava vitorioso”, diz.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Almeida destaca as principais contribuições de Hugo Chávez, aponta perspectivas para o futuro da Venezuela e já garante: “O que ocorrer na Venezuela não terá implicações somente para este país. Afetará a correlação de forças em escala continental”.
Leia a seguir.

Brasil de Fato - Como você avalia os 14 anos de governo Chávez?
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida - Muito positivamente. Nestes quase 15 anos, o governo Chávez produziu fortes impactos sobre a sociedade venezuelana e sobre as relações internacionais. Houve grande redução da pobreza e do analfabetismo na Venezuela, ao mesmo tempo em que os burgueses mais reacionários (grandes proprietários dos meios de comunicação) sofreram derrotas inimagináveis. O processo cubano, à beira da exaustão, teve um novo alento, não somente porque a ilha recebeu o petróleo de que tanto necessitava, mas também por fornecer médicos e educadores que contribuíram para a elevação do padrão de vida e da formação cultural de amplos contingentes das classes populares venezuelanas. A América Latina, o antigo quintal dos EUA, tornou-se, no imediato pós-Guerra Fria, um dos principais obstáculos à construção de uma “nova ordem” imperial graças, em grande parte, à atuação do governo Chávez. Neste caso, podemos citar as políticas efetivamente voltadas para a integração do subcontinente, com destaque para o combate à ALCA e a criação da ALBA, além do apoio a governos que expressaram alianças mais à esquerda. Pelo próprio fato de existir, o governo Chávez deixava os dirigentes da política externa estadunidense com uma agenda sobrecarregada: de um lado, questões candentes no Oriente Médio; de outro, um governo venezuelano rebelde e dotado de grande capacidade de articulação no subcontinente. E o governo Chávez fez mais. Sempre que pôde, partiu, com os pequenos recursos de que dispunha, para a ofensiva. Tomou a iniciativa de rearticulação da OPEP; apoiou decididamente a luta do povo palestino, chegando a expulsar o embaixador de Israel quando as forças armadas deste país invadiram a Faixa de Gaza; corajosamente, estreitou relações com o Irã. Enfim, aproximou-se da China e da Rússia, até para evitar o total controle estadunidense sobre o armamento venezuelano; e afrontou publicamente o presidente dos Estados Unidos na Assembleia da ONU, além de fornecer ajuda material à parte da população pobre do país mais poderoso do mundo. Toda esta política foi legitimada por sucessivas vitórias nas urnas (com o percalço do plebiscito de 2007) frente às quais a direita venezuelana e os dirigentes estadunidenses perderam qualquer capacidade de iniciativa. Indivíduos ou governos não fazem a História, e o mais importante mérito do governo Chávez consistiu em tirar grande partido de uma situação marcada por amplos movimentos de massas do sul do México à Argentina, passando pela própria Venezuela, alguns dos quais produziram governos de centro-esquerda e de esquerda na América Latina; e das contradições de um período marcado por fortes resistências às tentativas de constituição de uma ordem imperial.

Em qual área, na sua avaliação, foram implementadas as medidas mais importantes?
Muitos dão ênfase às políticas sociais, mas destaco a politização das classes populares, a qual embora ainda sofra sérias limitações. Politização que produz ávidos leitores da Constituição e foi fundamental para derrotar, em 2002, um golpe de Estado que praticamente todo mundo já considerava vitorioso. O grande problema está nas relações entre a amplitude (e, às vezes, imprecisão) dos objetivos que o governo Chávez se propôs e o déficit organizacional destas classes populares, especialmente dos trabalhadores venezuelanos no campo e na cidade. Minha imensa admiração pelo governo Chávez não me leva a considerar que existe, na Venezuela, um processo de revolução socialista. Constitui-se, a meu ver, uma coalizão de forças antineoliberal sob a direção de um setor radicalizado da burocracia de Estado, especialmente no ramo militar. Diversas forças imprimem a esta coalizão uma tendência antiimperialista e mesmo anticapitalista. Mas, contrariamente ao que o discurso bolivariano apresenta, o que predomina é um forte nacionalismo de caráter antineoliberal. Não é pouco.

Qual a importância do governo Chávez para a integração da América Latina?
Nunca um governo atuou tanto nesta direção. Porém, o governo Chávez não poderia superar poderosos obstáculos a um projeto de integração latinoamericana com predominância dos interesses populares. Para mencionarmos apenas o caso de três países – Brasil, Argentina e México – neles encontramos sociedades de considerável desenvolvimento capitalista, com Estados burgueses bem estruturados e que organizam  o poder político de uma burguesia que conta com a presença direta de frações imperialistas, além de outras fortemente vinculadas ao imperialismo nos planos econômico, político e ideológico. Longe de ser algo externo, o imperialismo é parte constitutiva destas três formações sociais. E longe de serem homogêneas, são sociedades marcadas pela presença de interesses contraditórios. Uma integração que privilegie os interesses das classes populares passa por profundas mudanças nas relações de classes no interior das sociedades latino-americanas.  Isto implica mudanças não somente de governos, mas que afetem profundamente a própria estrutura dos Estados na região.

Quais as perspectivas para a Venezuela?
A própria força da presença política de Hugo Chávez contribuiu para deixar uma série de questões em aberto. A primeira delas é se a coalizão bolivariana se manterá e, em caso positivo, se ocorrerão mudanças em sua correlação interna de forças. No curto prazo, na medida em que a intervenção operária e popular autônoma se fará necessária até para a defesa dos avanços realizados nesta década e meia, esta relação ficará mais clarificada. De qualquer forma, o que ocorrer na Venezuela não terá implicações somente para este país. Afetará a correlação de forças em escala continental. Basta pensar na situação de Cuba. Está em jogo a possibilidade, por um lado, de aprofundamento das lutas antineoliberais e antiimperialistas na América Latina em um momento de crise capitalista na Europa e Estados Unidos. No sentido oposto, apresenta-se o risco de novas aventuras estadunidenses com vistas a constituir um eixo geoeconômico que se estenderia do México à Amazônia. Qualquer dessas tendências – ou algo intermediário – terá importantes repercussões de alcance mundial. A luta por transformações sociais no Brasil passa pelas mais diversas formas de apoio ao proletariado e ao povo venezuelanos. Nunca o internacionalismo latinoamericano foi tão necessário.

Recuperar a política econômica


O capitalismo com crescimento estável e salários reais em expansão é coisa do passado. O modelo de hoje é o do desemprego massivo e da pobreza. Urge recuperar a política econômica para, pelo menos, tentar estancar as carências mais grosseiras do capitalismo. Por Alejandro Nadal, do 'Sin Permiso'