quinta-feira, 11 de abril de 2013

Inflação deve cair ao longo do ano, acreditam analistas


O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dos últimos 12 meses ultrapassou em março o teto da meta de inflação do governo federal. Pressionado pela alta dos preços dos alimentos e da habitação, atingiu 6,59% ante os 6,5% da meta, conforme divulgado pelo IBGE nesta quarta-feira 10. Ainda assim, o índice deve ceder ao longo do ano.
“Este dado está carregado por um período em que houve muitos aumentos. É um problema do passado, mas o quadro inflacionário ficará apertado de qualquer forma  neste ano”, diz o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp.
Um indicativo de um cenário de controle da inflação durante o ano é o IPCA de março. No mês, o índice ficou em 0,47%, contra 0,60% em fevereiro. O resultado ficou abaixo dos 0,5% esperados pelo mercado, algo que ocorreu pela primeira vez em nove meses. “Isso indica que [a trajetória de queda] deve continuar, pois a inflação tende a perder força com a entrada da safra agrícola nos próximos meses”, acredita o economista Antonio Carlos Alves dos Santos, professor da PUC-SP.
No acumulado do primeiro trimestre do ano, a inflação está em 1,94%. E o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou naa quarta-feira 10 que o governo não poupará esforços para controlar o índice. “Estamos em uma trajetória de reduzir a inflação.”
Parte do resultado esperado pelo ministro pode vir da previsão de uma safra agrícola maior para este ano no País, diminuindo a pressão sobre os alimentos. O item teve alta de 1,14% em março, 1,45% em fevereiro e 1,99% em janeiro. As explicações incluem problemas climáticos, quebras de safra e maior demanda. Somente no mês passado, os alimentos responderam por 60% da variação da inflação, com destaque para as variações de mandioca (151,39%), tomate (122,13%) e batata inglesa (97,29%).
Nem mesmo a desoneração dos produtos da cesta básica, anunciada pela presidenta Dilma Rousseff, foi suficiente para evitar a alta dos preços. “É natural que uma desoneração no primeiro momento seja absorvida por margens de lucro na produção ou comercialização. Ao longo do processo é que a redução de impostos vai levar à queda de preços para o consumidor”, diz Almeida.
Com a incerteza sobre o rumo da inflação, o mercado já ventila como inevitável um aumento na taxa de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, atualmente em 7,25% ao ano. A previsão é que a taxa subiria para 7,5% em maio e fecharia o ano em 8,5%. Uma medida que deve ser analisada com cuidado. Segundo Almeida, o aumento da Selic poderia permitir que o processo de alta da inflação não se generalize, mas o crescimento poderia ser afetado. “A economia brasileira está muito fraca e o aumento dos juros vai deixá-la ainda pior. Trata-se de uma economia que cresceu apenas 0,9% em 2012, não está superaquecida. Aumentar juros em uma economia cambaleante pode ter efeito forte em um possível início de aquecimento.”
O governo, diz ele, precisa acenar para o mercado – que está atento à inflação – e jogar com as expectativas, aumentando o juros ou deixando claro que se preocupa com o tema. Santos, por outro lado, acredita que o problema central não está sendo atacado: o elevado desequilíbrio entre a oferta e demanda agregada. “Neste caso, só há duas alternativas: reduzir gastos públicos ou aumentar os juros.”
Educação ajuda na queda do IPCA de março
Um dos itens que mais ajudaram a minimizar o IPCA em março foi a educação, que passou de uma variação de 5,40% em fevereiro, para apenas 0,56%. O grupo de transportes também contribuiu, ao sair de uma alta de 0,81% no mês passado para uma queda de 0,09% em março. Algo explicado pelo declínio de 16,43% das passagens áreas em março. A gasolina registrou variação de 0,09% em março contra 4,10% de fevereiro.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Estilo da "dama de ferro" refletia embate de classes


As sucessivas eleições e o estilo duro, quase autoritário, de Margaret Thatcher foram o resultado das conquistas e conflitos -econômicos e sociais- do modelo de país que ela ajudou a enterrar.

Uma dessas conquistas foi o poder dos sindicatos e a elevação do padrão de vida dos trabalhadores britânicos. Entre 1978 e 1979, na tentativa de conter a inflação, o então governo trabalhista determinou limites ao aumento de salários de funcionários públicos.
Ferroviários, motoristas de ambulância, lixeiros e coveiros, entre outros, fizeram paralisações em protesto.

Um dos grupos mais insatisfeitos com a "chantagem" e a "desordem" -como viam a situação- impostas ao país pelos sindicatos era uma nova classe média cuja ascensão social se deu justamente como resultado das conquistas do Estado de bem-estar social britânico, vigente desde a década de 40.
Há um exemplo "clichê", diz Tony Judt, autor de "Pós-Guerra" (Objetiva), do representante dessa nova classe, que em 1979 pendeu para Thatcher. "Um corretor imobiliário, cujo pai havia sido operário numa fábrica de carros, e que agora usa gravata, tem sua própria casa, embora na verdade não tenha lá muito dinheiro."
"Essa classe de pessoas que ascenderam socialmente, que não eram sindicalizadas, e pertenciam majoritariamente ao setor de serviços, compunha a "foto" sociológica do eleitor de Thatcher", ele diz.
O também historiador Kenneth Maxwell diz que havia claramente uma oposição entre os dois grupos.
"Era uma situação de crise, e ela recebeu o mandato para enfrentá-la. Capturou essa fantasia de uma classe média que se acreditava o que havia de melhor no Reino Unido do pós-guerra, e entregou o que prometia -uma política fiscal restritiva, limpar e acabar com o poder dos sindicatos."
É possível entender, assim, que seu estilo de confronto -com sindicatos, com a oposição- fizesse tanto sucesso político com os eleitores.
MINEIROS E MALVINAS
Assim foi forjada a ideia da "dama de ferro", que em 1984 e 1985 enfrentou uma dura greve de mineiros, que durou um ano, sem fazer concessões. Ao final, a derrota desse grupo, somada a reformas trabalhistas, representou uma pá de cal no movimento operário no país.
A consolidação de sua liderança, dizem os historiadores, viera antes, em 1982, durante a Guerra das Malvinas. A vitória britânica sobre a Argentina, que reclamava como suas as ilhas que eram território do Reino Unido desde o século 19, reforçou não só sua imagem como a do próprio país.
Para Tony Judt, Thatcher usou a guerra como "um símbolo duplo": "Da sua força e decisão, e da recuperação do Reino Unido de sua decadência -econômica e imperial- e fraqueza nos anos 70."
Maxwell vê num "comprometimento pessoal" da primeira-ministra a possibilidade de vitória contra a Argentina. "Quando você pensa que as frotas tiveram que atravessar o Atlântico.... Um outro líder, eu creio, teria cedido. Foi aí que o seu caráter durão funcionou", ele diz. "Depois disso, ela se tornou mais e mais autoritária."
O uso que Thatcher fez do apoio e poder acumulados criou uma espécie de paradoxo entre sua atuação política e seus ideais liberais nos campos social e econômico.
A grande defensora da redução dos poderes do Estado centralizou o poder, limitando e até cassando poderes locais. Sete grandes administrações regionais, todas encabeçadas por trabalhistas, foram extintas em 1986, entre eles o Greater London Council.
Em 2000, já sob governo trabalhista, a figura de um "prefeito" para Londres foi recriada. O eleito de certa forma reassumia o poder, embora formalmente os cargos fossem distintos, já que o trabalhista Ken Livingstone administrava a cidade quando sua função foi extinta, em 1986.
No dia da posse, começou assim o seu discurso para os londrinos: "Como eu estava falando antes de ser tão rudemente interrompido 14 anos atrás...".

sábado, 6 de abril de 2013

Tomate está em alta nos supermercados e redes sociais


O ladrão anuncia o assalto: "Passa o tomate!" Para proteger o bem maior, a vítima tenta convencer o agressor: "Não quer levar a carteira e deixar o tomate?" Este diálogo faz parte da charge que tem circulado nos últimos dias nas redes sociais. Se toda a brincadeira tem um fundo de verdade, esse caso não foge à regra. O tomate tem sido o vilão da inflação há um bom tempo nos indicadores de preços ao consumidor.
Embora tradicionalmente apresente fortes oscilações, desde o fim de 2012 o produto tem se mantido em níveis altos e a questão ganhou proporção maior após a tradicional cantina paulistana Nello's anunciar no Facebook que passaria a banir o item do cardápio enquanto os preços não voltarem ao normal.
No Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) de março, por exemplo, o fruto liderou o ranking de pressões de alta do indicador na capital paulista. O preço do item subiu 18,25%, praticamente o dobro da alta de fevereiro, de 9,25%. No acumulado do primeiro trimestre, o tomate apresentou elevação de 70,9% e nos últimos 12 meses encerrados em março uma alta impressionante de 104,11%.
A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp) explicou em nota sobre a variação de 3,73% do índice de preços de março que "condições climáticas adversas nas regiões produtoras, como excesso de chuvas e altas temperaturas, além de problemas sazonais em algumas culturas, voltaram a interferir negativamente na qualidade e volume ofertado, principalmente nos setores de legumes e diversos". Dentro do setor de diversos, lá está ele: o tomate avançou 19,2% e figurou entre as principais altas do índice geral.
Por enquanto, não há previsão de recuo nos preços. Enquanto alguns alegam que a saída é torcer para o outono trazer menos chuvas, outros assinalam que uma ambição menor dos comerciantes poderia ajudar. Enquanto isso, as piadas se proliferam. No Twitter, por exemplo, internautas já se perguntam quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai anunciar o fim do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o tomate.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Economia aplicada ao futebol: a competitividade do Brasileirão

Há muito se convencionou que o campeonato brasileiro seria “o mais difícil do mundo”. Pode ser complexo superar o teor abstrato da afirmação, mas o fato é que ciência econômica possui artifícios capazes de mensurar o nível de competitividade dos torneios. Foi o que fez o professor Cristiano Machado Costa, Coordenador do Centro de Estudos e Análises Econômicas da FUCAPE Business School (Vitória/ES). O resultado confirmou que nenhum campeonato é, no mínimo, tão equilibrado quanto o Brasileirão.
Existe um índice chamado Herfindahl-Hirschman (ou simplesmente HHI) que mensura a concentração de mercado através da soma dos quadrados das parcelas (market share) de cada empresa. Por exemplo, se em um setor existem duas empresas e cada uma possui exatamente 50% das vendas, então o HHI é (0,5)² + (0,5)² =0,5. Já se no setor existem três companhias, uma com 50% e as outras com o restante (25% cada), então o HHI é (0,5)² + (0,25)² + (0,25)² = 0,375. Em suma, quanto mais competitivo um mercado, menor seu índice HHI.
Eis que este conceito, aparentemente complexo, pode ser perfeitamente adaptado ao futebol. Basta considerar que o market share de cada clube seja o número de pontos conquistado por ele dividido pelo somatório dos pontos de todos os participantes do torneio. Teríamos assim o Índice de Competitividade Futebolística (ICF)*. Em uma série histórica iniciada com o advento dos pontos corridos (2003-2012), o professor concluiu que o Campeonato Brasileiro há anos vem sendo o mais competitivo entre os principais do mundo:
*No limite da competitividade, todos os jogos terminariam empatados – levando ao menor ICF possível.
Nota-se que o Brasil foi o país que apresentou menor ICF ao longo dos últimos 10 anos – tendo 2007 como exceção (em detrimento do francês). As temporadas de 2005 (ICF 0,151) e 2009 (ICF 0,170) foram as de maior equilíbrio. Já o maior desequilíbrio se deu justamente em 2012 (ICF 0,313) – ano em que o Fluminense quase bateu recordes de pontuação máxima. Entre os torneios mais desequilibrados estão italiano e inglês, com alemão e espanhol em processo de concentração recente.
Um grande abraço e saudações!
Fonte: http://globoesporte.globo.com/platb/teoria-dos-jogos/page/3/

quarta-feira, 27 de março de 2013

Brasil quer voltar a ser país dos imigrantes


O tema importação  de cérebros frequenta as discussões públicas brasileiras pelo menos desde o início dos anos 90, quando o fim da União Soviética provocou um êxodo de cientistas.
Na época, governo Collor, anunciaram-se algumas medidas visando atrair quadros, mas não se avançou.
Agora, a Secretaria de Ações Estratégicas – ligada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República – estuda uma estratégia para atrair a migração.
Em entrevista ao Miami Herald, o Secretário Ricardo Paes de Barros anunciou a intenção de retomar a migração especializada. “Estamos atrás de talentos e capital humano”, explicou.
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Historicamente, os imigrantes ajudaram a construir o Brasil. A grande imigração ocorreu na segunda metade do século 19.
Entre 1888 e 1929 – excluindo a I Guerra Mundial – o Brasil recebeu mais de 100 mil imigrantes por ano, liderados pelos italianos, seguidos de portugueses, espanhóis, alemães, do Oriente Médio, poloneses, russos e ucranianos.
Começaram trabalhando nas fazendas de café. Depois, com a industrialização, passaram para o chão de fábrica.
Nas décadas de 1920 e 1930 ocorreu a migração japonesa. Depois, temeu-se pela perda da identidade brasileira e criaram-se cotas de migração paralisando o movimento migratório.
Um século atrás 7,3% da população brasileira era nascida no estrangeiro. Atualmente, é de apenas 0,3%, contra 13% da população norte-americana, conforme o censo de 2010.
A metade da SEAE é chegar a pelo menos 2%, talvez 3%, dentro de alguns anos. O que corresponderia a 6 milhões de imigrantes.
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Outro ponto a estimular as novas políticas migratórias foi o declínio das taxas de fertilidade brasileiras. O Brasil ainda é relativamente jovem, diz Paes de Barros, mas vai começar a mudar a partir de 2025, com o aumento do percentual de idosos sobre a população economicamente ativa.
Por enquanto, os planos esbarram em problemas reais. Conseguir visto de trabalho no Brasil é operação complexa, que exige a apresentação de 19 documentos em consulados brasileiros. Além disso, existem muitas leis restritivas ao trabalho dos estrangeiros.
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Há algumas sugestões em curso. Como o de ampliar os visto de trabalho para os membros da família de estrangeiros. Ou reduzir os encargos quando se constatar que os estrangeiros não tem “similares” brasileiros. Alguns documentos já podem ser apresentados de forma digital.
Mas o ideal, segundo Paes de Barros, seria uma lei criando uma agência ou comissão com o objetivo declarado de estimular a migração.
Há um grupo de trabalho junto agências governamentais e universidades reunindo-se para rever a política de migração para as próximas décadas. E focando em especializações escassas no Brasil, como engenheiros de minas, de petróleo e também para os grandes projetos de infraestrutura rodoviária e de comunicações.
No ano passado, o Brasil deu 73.022 vistos para trabalhadores estrangeiros -, mas apenas 8.340 delas foram vistos permanentes.
Desse total, 9.209 foram para residentes nos EUA, seguidos por trabalhadores de Filipinas, Haiti, Reino Unido, Índia, Alemanha, China e Itália.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/brasil-quer-voltar-a-ser-pais-dos-imigrantes/

Economia brasileira vive momento de recuperação cíclica, avalia Ipea


O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avalia que a economia brasileira está em momento de “recuperação cíclica”. De acordo com a Carta de Conjuntura divulgada nesta terça-feira, 26, o ciclo atual é “bem distinto” do observado em outros anos e isso pode atrapalhar a previsibilidade política-econômica.
“Isso tem implicação em política [macroeconômica] importante porque torna essa tarefa mais complicada do que seria em ciclo típico”, disse o coordenador do Grupo de Estudos em Conjuntura, Fernando Ribeiro. Como exemplo, citou o impacto na taxa básica de juros, a Selic, que está em 7,25% ao ano.
“Em um ciclo típico, neste momento, o país estaria reduzindo o juro, como aconteceu em outros momentos. Na recuperação, você joga o juro para baixo para impulsionar a economia. Hoje, a gente tem a taxa de juro baixa e, por conta da pressão inflacionária, o Banco Central reconheceu que não há espaço para novas quedas, talvez, tenha necessidade em um aumento [da taxa]”, explicou.
O economista destaca que, apesar das pequenas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), nos últimos meses, não há aumento do desemprego, da inflação e queda da atividade nos setores da economia. “Há alguma desaceleração do consumo, mas mais discreta que em outros ciclos”, diz a carta.
“Difícil prever o que vai acontecer daqui para frente. Quando o ciclo é típico existe uma história, mais ou menos, padrão, que explica o que acontece na queda e na recuperação. Não é esse o caso”, reforçou Ribeiro.
Fonte:http://www.oeconomista.com.br/economia-brasileira-vive-momento-de-recuperacao-ciclica-avalia-ipea/

Por que o Brasil não produz aço?


O professor Wanderley de Souza, um dos mais notáveis cientistas brasileiros em atividade, contou-me, faz anos, episódio ocorrido no início dos anos 70, na FINEP,  a mais importante financiadora brasileira de pesquisa e inovação tecnológica. Estávamos, naquele então,  no auge do ‘milagre brasileiro’, quando  a agência  foi visitada por uma delegação de políticos, empresários e funcionários da Coreia do Sul, interessados em conhecer o ‘esplendoroso desenvolvimento industrial brasileiro’, para, eventualmente, aplicá-lo em seu país. Recebeu-os o presidente  José Pelúcio, exemplar homem público, a quem muito devemos, inclusive a criação do FUNTEC e do FNDCT. Ao cabo de sua exposição, centrada no sucesso da indústria automobilística brasileira, o coordenador da delegação visitante observou algo assim:
– Parece que o senhor não nos entendeu; não estamos interessados em atrair  montadoras estrangeiras, mas em criar  nossa própria indústria automobilística.
Naqueles anos 70 o Brasil produzia mais automóveis do que toda a Ásia, menos o Japão. Hoje, todos os asiáticos têm suas próprias marcas, e as exportam para o Brasil, a começar pela Coreia. Mas não é só. Os coreanos estão instalando no Brasil suas próprias montadoras! A Hyundai é uma delas. O mesmo está ocorrendo com a China que antes importava o Santana, calhambeque da VW montado aqui. Nos anos 80, a produtividade média da economia brasileira era igual à coreana.  Hoje, a da asiática é três vezes maior do que a nossa. Entre os oito líderes do setor automotriz se encontram Brasil e México, ambos em franca expansão. Mas são esses países, dentre aqueles oito, os únicos que não têm marca própria. As maquiladorasmexicanas (as peças fabricadas nos EUA atravessam a fronteira para serem montadas pela mão de obra aviltada) importam 75% dos insumos que processa (Esses dados estão em Gabriel Palma,  HTTP://.cartamaior.com.br/templetes/materiaMostrar.cfm?materia_id=19522 a quem igualmente devo a pergunta que utilizei como título deste artigo). Assim, o México será, sempre, uma dependência colonial dos EUA.
Dir-se-á que nosso fracasso na indústria de transformação é compensável pelo sucesso do agronegócio (a agricultura cresce mais do que a maior parte dos setores da economia brasileira há mais de uma década) catapultado  pelas pesquisas da EMBRAPA.  Em termos. A produção e comercialização  de sementes, herbicidas, fungicidas e mais isso e mais aquilo está nas mãos de multinacionais como a Monsanto, a Bayer e a Syngenta. Fenômeno similar se repete com o pró-álcool: a produção brasileira de etanol está crescentemente passando ao controle de multinacionais.
O que aqui chamamos de ‘tragédia de uma industrialização dependente’, tem suas raízes no modelo desenvolvimentista fundado no tripé empresa nacional-multinacionais-Estado, no qual se dá preferência às multinacionais, sem discutir nem a quantidade, nem a qualidade da tecnologia importada, modelo estabelecido por JK nos anos 50, e desenvolvido pela ditadura militar, a partir de Costa e Silva.  O paradigma volta a ser a indústria automobilística aqui instalada, obsoleta, e mesmo assim limitada a montadoras, sob o agasalho dos mecanismos protecionistas. Nenhuma produção ou transferência de tecnologia, esta concentrada nas matrizes das multinacionais, da informática aos tênis. A União investe fundamentalmente em infraestrutura e no financiamento das empresas, especialmente via BNDES. E investe em pesquisa, através das estatais ou do financiamento através de suas agencias de fomento. Mas o empresariado nacional entendia, como ainda agora, que mais barato e mais seguro é pagarroyalties. Com o Estado neoliberal de FHC, acabaram-se as  estatais e com elas o caro, demorado e arriscado investimento em pesquisa. Ficaram, além da EMBAPA e das universidades públicas,  empresas como a Petrobras, investindo em tecnologia, de que é exemplo seu sucesso em águas profundas. Mas desapareceram, estão desaparecendo, vendidas a capitais estrangeiros, as empresas brasileiras que poderiam operar no pré-sal. O risco é óbvio.
Outro exemplo de êxito na aplicação de tecnologia é a EMBRAER, iniciativa estatal (FAB) vitoriosa, vendida a capitais franceses com dinheiro do BNDES. Mas se a arquitetura das aeronaves é nossa, tanto quanto o planejamento empresarial e mercadológico, é preciso lembrar que o aço, a aviônica (os instrumentos de voo), as turbinas (que representam cerca de 30% do valor de um avião) e, em alguns casos, os trens de pouso, são importados dos EUA e as asas fabricadas na Espanha.
Quanto ficou de tecnologia para nós? Isso não é irrelevante. Como nossos aviões possuem componentes originários dos EUA, a grande potência pode embargar qualquer venda a país que não conste de sua lista de bons amigos. Assim, nossos aviões civis não puderam ser vendidos a Cuba, e os Tucanos não puderam ser vendidos à Venezuela. Dois exemplos em muitos. Aliás, o sucesso desses aviões na operação colombiana contra sítios das FARC no Equador, fizeram com que a EMBRAER se visse impedida de importar o equipamento norte-americano HONEYWELL 33 EGIR, que permite a informação inercial e informação para o altímetro radar, usados naquelas aeronaves (assim desvalorizadas), no caça F-5 (modernizado pela EMBRAER para emprego pela FAB) e no Caça A-1. São poucos exemplos num rol centenário.
Nosso atraso – na produção científica, na aplicação tecnológica e na inovação– tem uma medida: os investimentos em P&D. Os EUA investem 2,7% de seu PIB, a China 1,4% e o Brasil 0,9%.
Poderemos ser, amanhã, uma nova Austrália, alimentando o mundo rico (e os ricos desse mundo) com carne e grãos, mas jamais seremos um país soberano enquanto não formos uma potência tecnológica, aquela que domina o conhecimento científico e o sabe aplicar e o aplica autonomamente.
Por que a Ásia cresce o dobro que a América Latina, e cresce de maneira sustentada, enquanto a variação de nossos PIBs assemelha-se ao gráfico de um eletrocardiograma? Por que, enquanto engatinhamos, países que igualmente ingressaram tardiamente  na revolução industrial, como Coreia, Índia e China, nos superaram?
Por que o Brasil que pôde criar a EMBRAPA, a Petrobras e a EMBRAER, ou seja, promover avanços pontuais, como a produtividade do plantio de soja, não consegue estender essas experiências ao conjunto da economia?
Por que não conseguimos agregar valor à produção de grãos? Por que, exportando dois terços do ferro consumido pelo mundo, somos responsáveis por apenas 2% do comércio de aço? Por que importamos trilho –cuja produção não exige tecnologia avançada, inovações ou patentes– e manufaturas sofisticadas da China, país que há menos de 70 anos vivia num regime semi-feudal e que só há pouco mais de duas décadas iniciou seu processo de industrialização, para hoje ser reconhecido como a segunda potencia econômica do mundo?
Por que apenas em 2012 entrou em operação a primeira fábrica de chip do Brasil, e a Índia é, há mais de uma década, um dos maiores centros produtores de software? Essa mesma Índia, país teoricamente inviável — mal liberto do colonialismo inglês (1947), mal saído da perda do Paquistão (mantida, porém, a beligerância), dividido em castas, em centenas de línguas e seitas religiosas, e com território relativamente escasso em face de sua população– produz mais engenheiros e cientistas que toda a América Latina.
O que a experiência desses povos tem a nos ensinar?
Todos esses países que se desenvolveram tão rapidamente, conheceram o papel indutor do Estado. No Brasil dos dois Fernando, esse papel foi reduzido a quase nada, e o arcaísmo neoliberal impôs a desregulamentação, com nossa adesão (rompida no primeiro governo Lula) ao ‘consenso de Washington’. O desenvolvimento havia sido trocado por um não-desenvolvimento (em nome do combate à inflação) associado a profundo processo de desnacionalização, este, é preciso reconhecer, ainda não estancado.
Nesse mesmo período, os países asiáticos investiram  na base educacional de sua força de trabalho, de que é mero indicador a formação de engenheiros. O Brasil (praticamente 200 milhões de habitantes) forma 30 mil engenheiros por ano. A Coreia (50 milhões de habitantes) 80 mil.
Entre nós o ensino de primeiro e segundo graus é uma tragédia, e a massificação do ensino superior se faz através da escola privada mercantil de baixíssima qualidade e nenhum investimento em pesquisa (apenas um dado: 90% dos formados em Direito, um curso relativamente fácil e barato, são reprovados no exame da OAB). Se todas as profissões exigissem exame prévio…  Enquanto no Brasil a regra para o ingresso do capital estrangeiro foi e é a de porteira aberta e agradecida, na China, por exemplo, onde capital é benvindo mas é condicionado, ele precisa estar associado a um empreendimento local e tem que aportar tecnologia.
Apesar dos esforços e avanços recentes, é necessário reconhecer que ainda nos achamos a uma boa distância de nos tornarmos  um país de letrados e numerados (aí está o desempenho dos nossos egressos do ensino médio em português e matemática…), e no que tange a projeto nacional e planejamento de longo prazo (que implica opções estratégicas) não temos mais que fragmentos, esboços e intenções. Em tal quadro, pouco adianta pedir a norte-americanos, chineses e coreanos que se contenham na defesa dos seus próprios interesses.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/por-que-o-brasil-nao-produz-aco/